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Riqueza rural: mulheres lutam pelo empoderamento feminino no campo

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Durante a série "Riqueza Rural", que ao longo dos últimos três meses percorreu os municípios de Jaraguá do Sul, Corupá, Guaramirim, Massaranduba e Schroeder, mostrando um pouco das culturas produzidas e quem são os empreendedores do meio, o papel fundamental das mulheres ficou subentendido.

Na agricultura familiar, elas protagonizam histórias de muito trabalho e lutam por reconhecimento. Mesmo assim, além da lida no campo, não deixam de participar da rotina doméstica ou de tomar frente na educação dos filhos.

Por desempenharem um importante papel no campo, onde empreendem e cuidam da família e do lar, as mulheres encerram a série mostrando que sua força e determinação também devem ser levadas em conta no agronegócio.

Em Jaraguá do Sul, um coletivo feminino reúne produtoras de alimentos orgânicos e convencionais, entre frutas, legumes e hortaliças.

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Elisabeth (E), Eliane, Ivanete e Luciane fazem parte do coletivo feminino de produtoras rurais | Foto Eduardo Montecino/OCP News

Ivanete de Souza, 47 anos, casada, cinco filhos e três enteados; Elisabeth Peixe Hanemann, 43 anos, casada, dois filhos; Luciane Zilse da Silva, 41 anos, casada, dois filhos; e Eliane Tecila Zilse, 40 anos, casada, dois filhos, fazem parte desse grupo de agricultoras que busca o empoderamento.

As produtoras são ligadas à Coparjas, de Jaraguá do Sul, um braço estendido da Unicafes SC, que é a União Nacional das Cooperativas de Agricultura Familiar e Economia Solidária de Santa Catarina.

De acordo com Ivanete, que é uma das coordenadoras do grupo, há cerca de três anos a Unicapes lançou um desafio para a formação de um coletivo de mulheres, buscando dar visibilidade às agricultoras.

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“Porque o que se vê são lideranças masculinas sempre à frente, principalmente no cooperativismo, na agricultura. A gente aceitou o desafio e hoje temos cinco grupos em Santa Catarina, alguns bem solidificados”, explica.

Segundo ela, poucas mulheres estão no comando das associações e cooperativas. Como foi presidente da Coparjas por oito anos, afirma que sentiu falta desse apoio para ajudar a debater a questão de gênero.

“Porque, além de você estar num mundo totalmente machista, você tem que expor as ideias e mostrar que vai funcionar, apenas por ser mulher”, afirma.

Desenvolvimento sustentável

Atualmente, agricultoras de Jaraguá do Sul e de fora estão junto ao grupo buscando melhorias e novos projetos. E, agora, elas contam com o Moeda, uma iniciativa privada, que além de missões internas e valores próprios, busca atender aos objetivos de desenvolvimento sustentável da Organização das Nações Unidas (ONU).

“Nós fazemos parte do Moeda, uma plataforma que viabiliza o fomento de ações de desenvolvimento sustentável para cooperativas, com investimento para nós, mulheres na agricultura. Estamos inscrevendo esse projeto, já passamos por duas fases e entramos na fase final de investimento para a gente montar a nossa unidade, onde a gente vai criar sonhos”, destaca Ivanete.

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Luciane atua em todas as etapas da produção de alimentos | Foto: Redes sociais/Aquivo Projeto Moeda

Ela explica que a Coparjas possui uma unidade de processamento no bairro Garibaldi, que é um espaço cedido pela Prefeitura. Agora, o coletivo está buscando recursos para fazer, paralelo a esse espaço, uma cozinha industrial experimental. Assim, o grupo pretende testar receitas e inovar no mercado com suas criações. Também estão pleiteando uma sala de reuniões, além de um veículo para que possam participar de eventos em outras localidades.

“Os benefícios serão muitos, porque a gente está testando os coprodutos do que nós temos. A sobra da casca da mandioca, por exemplo. Nós temos uma engenheira de alimentos que já está fazendo testes para um novo produto”, revela.

O recurso financeiro da ONU empregado em benefício das agricultoras, além de fomentar a renda, atende a um dos objetivos da organização, que é a erradicação da fome e da pobreza.

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As produtoras rurais acreditam que as mulheres têm menos resistência às inovações e, por isso, estão sempre buscando alternativas para empreender e promover melhorias em seus negócios.

“(A cozinha experimental) vai abrir várias oportunidades para nós, porque sabemos onde tem mercado. Assim, in natura, já é mais difícil, o pessoal não quer mais ficar limpando os produtos. Eles querem colocar na panela já prontinho. E nós queremos inovar para facilitar a vida do trabalhador que tanto corre no dia a dia”, explica Eliane.

O grupo costuma debater o destino das sobras de alimentos, porque estas também apresentam qualidades. Hoje, quando a cooperativa tem esses produtos, acaba doando para os abrigos municipais, pois também há preocupação em ajudar a quem precisa.

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Projeto vai auxiliar produtoras no combate ao desperdício de alimentos | Foto: Wikipédia

“Muitas vezes, o produto está feio por fora, mas descascado e limpinho ele está bom, então dá para aproveitar. Ou então, ele está num tamanho menor. Assim (com a cozinha experimental) a gente vai evitar o desperdício”, conta Elisabeth.

Segundo as integrantes do coletivo, da colheita até o consumidor final há muitas sobras boas e reaproveitáveis e um dos objetivos do grupo é também atuar em benefício do próximo. Como comercializam sua produção para a merenda escolar no município, acreditam que os produtos novos também serão bem recebidos nas escolas.

Agricultoras defendem seu papel

Seja com a enxada na mão, subindo morros conduzindo o trator ou desfolhando as bananeiras, as agricultoras, que também gostam de manter a casa organizada e todos os afazeres normais da rotina em dia, garantem que são capazes de conduzir o empreendimento rural em todas as suas etapas.

“(Atuamos) de pé a ponta, do começo até o final, da colheita até a entrega. Nosso grupo entrega produtos da alimentação escolar, cuja comercialização é feita pela cooperativa. Algumas também vendem paralelamente o seu produto”, diz Eliane.

Atualmente, oito agricultoras jaraguaense e outras cinco de fora fazem parte do coletivo de mulheres. O número poderia ser maior, mas há preconceito e receio de estabelecer uma competição com os homens.

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“Muitas pessoas pensam que criar um grupo de mulheres é para competir com seu marido ou mudar a rotina da casa. Por isso, que a gente deixa bem claro que nós não somos feministas, nós queremos justiça para os dois lados”, opina Ivanete.

Conforme analisa, a região Norte de Santa Catarina é muito machista, mas faz questão de salientar que o uso da palavra ‘machista’ neste contexto não é dito no sentido pejorativo.

“Porque nessa caminhada descobrimos que somos mais machistas que os homens. Então, quando a gente faz nossos encontros debate muito isso. A gente chama de perfeccionismo, mas é machismo mesmo”, afirma a produtora, referindo-se também às tarefas domésticas que as mulheres impedem os homens de fazer.

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Grupo acredita que a desvalorização da mulher do campo precisa acabar | Foto: Eduardo Montecino/OCP News

Em outras regiões de Unicapes, segundo ela, há mais mulheres. Entretanto, cada área apresenta suas particularidades. No Norte, explica a coordenadora, há uma base familiar muito forte e sólida, que é um diferencial de outras áreas.

“No geral, a nossa agricultura é pesada e a gente não é visualizada. O agricultor em si já tem um papel que não é valorizado e para nós, mulheres, é pior ainda. Então, a gente quer mostrar que tem capacidade, ganhando o nosso dinheiro, numa das melhores profissões que tem, onde a gente faz tudo com bastante amor e carinho”, ressalta Ivanete.

Para o grupo, além de reconhecimento, falta para a mulher agricultora uma abertura maior de mercado. “Muitas vezes tem o produto e não tem para quem vender. Também ocorre a desvalorização do produto. Essa desvalorização é que tem que acabar, não é porque somos mulheres que nosso produto não tem valor”, aponta Luciane.

Às mulheres que ainda têm receio de buscar qualificação ou inserção em grupos de empoderamento, as produtoras deixam um recado: “O ‘não’ você já tem, corra atrás do ‘sim’. Você não pode desistir, porque existem muitos projetos para mulheres não divulgados. A gente tem que acreditar e batalhar, porque nada cai do céu”.

Riqueza rural: a história do jovem jaraguaense que optou pelo campo

Manutenção da família no campo

Um dos filhos de Elisabeth, hoje com 20 anos, optou por ficar no campo e trabalhar junto à família. Embora todas as integrantes do grupo estimulem os filhos a buscarem seus sonhos, dão todo o apoio para os que querem continuar no meio rural.

Elas acreditam que o panorama da agricultura vem mudando gradualmente e tem se tornado mais atrativo para o jovem. Isso se deve, também, à implementação de novas tecnologias que permitem um trabalho com menos desgaste e ‘sacrifício’.

Em alguns casos, os filhos acabam voltando para a roça quando os pais já estão se aposentando. Para as produtoras, proporcionar o retorno dos jovens é extremamente importante.

“Se os nossos jovens não se interessarem pela agricultura, o que vai acontecer? Vai virar loteamento e aí vem mais gente, mais pobreza e mais fome. Há uma fala de Abraham Lincoln (ex-presidente dos Estados Unidos) que diz assim: se destruírem as cidades e mantiverem os campos, essas se reconstruirão; se destruírem os campos e mantiverem as cidades, esses não voltarão mais”, ressalta Ivanete.

De acordo com ela, os jovens que focam já têm essa vontade de inovar, estão ligados no turismo rural e estão buscando empreender cada vez mais.

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Série Riqueza Rural também contou a história do jovem Gabriel Catoni que, assim como o pai e o avô, optou pelo campo | Foto: Eduardo Montecino/OCP News

A série "Riqueza Rural"

A série Riqueza Rural teve início no dia 10 de março de 2018 e, durante três meses, contou a trajetória de agricultores que, junto à família, atuam na produção de alimentos na microrregião.

Em Jaraguá do Sul, foram evidenciadas as culturas de aipim, arroz, bananas, palmáceas, alimentos orgânicos, olericultura, piscicultura e o tema juventude rural; em Corupá, as plantas ornamentais; Guaramirim mostrou a produção de melado e doces de banana; em Massaranduba, a pitaya é novidade; por fim, produtores de Schroeder estão erguendo um abatedouro de peixes com capacidade para abater dez toneladas por dia. Fonte: https://ocp.news / Por Ana Paula Gonçalves jornalista

 

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