“Ramílio-boitatá”, crônica sobre a vida nos ervais e a colheita da erva-mate

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O preparo da caieira é o diacho, um esterquério pra Ramílio Flora, como se lhe caíssem os mortos. Era o que ruminava, corcoveando a pinha de tanto pensar a trabalheira dorida varada entre os ervais. Sorte que a suarada do dia tinha sido lavada com uns golepes de licor-de-ferro de vera-mar comprados na bodega de nhá Jurça, a viúva danada de alegrona e que dormia com os fregueses mais gibeirudos.

Ramiro Flora levava as cadeiras retorcidas pelo peso dos parapeitos da caieira pronta pra sapecar a erva. O frio de julho, a geada, a cerração, os anos vividos debaixo dos caibros da vida: tudo somando pra que as canhadas do tempo futricassem seu corpo, podando enleios, plantando coivaras no rosto do capiau. Mas quem lhe disse que tudo não havia sido feito num repelecho? Pois eu lhe garanto que esse pelenque-pelenque é coisa d’algum polaco jubarento, desses que andam mal das guampas. Eu não lhe disse? Que vá comer tatarca!

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Fernando Tokarski colaborou com a revista Globo Rural em junho de 1993 (Foto: Globo Rural )

A vida dos ervais é assim mesmo. De manhãzinha o pardo se trunfa na foice, pés descalços, podando as erveiras, as crias arrastando galhos, empilhando os montes num bulício de vozes serelepadas. A faina progride ao dia escancarado, num ajutório familiar cheio de alaridos como tirivas em chusma. Caieira pronta, o próximo passo é sapecar a erva aprontar o mate.

A quebra dos galhos exige destreza ao envarar os maços, os feixes, numa luta labasca de lidar! Tudo por uns miserentos mirréis que mal dão pra comprar banha, farinha, umas gulodices pros piás e a amarelinha da boa.

Se disserem que a vida num sapeco é faceira, tão mentindo! Tamos nisso desde os cueiros e nunca vi nada pior. Mas é a lida da gente, dos caboclos destas ribanceiras, desde os jagunços do Contestado benzidos por são João Maria que estais no céu! Os anos varam, plantando a cova funda das grotas, arando os sulcos sangrentos no couro da carne.

O adianto do sapeco ia ganhar umas horinhas; à noite o fogo não é tão quente, ajudando a tostada. Podiam-se dizer pândegas sobre as arrobas de erva-mate feitas na safra; não é serviço a qualquer calça-foice de um bago só, machinho capaz de se meter a jacu-rabudo. Quem não entende desse trubisco que não se lambuze, como dizia Leporácio, atirado de fogo e guardião dos barbaquás.

As bitrucas haviam sido tomadas na nhá Jurça quando Ramílio Flora desancou pros lados das invernadas. O incendeio da caieira se fez com os sapés ateando as labaredas luzidias, estralando as grimpas e os gravetos ressequidos pela estiagem, alumiando a noite estrelada, anunciando outra geada ao amanhecer. Cambaleante, Ramílio começa a sapecagem das folhas, rodopiando ao redor dasgalhadas, sentindo o cheiro da erva queimada. Os braços cansados não têm força para levantar pijucas, coivaras, espantar titicas.

A embriaguez amplia a solidão, cria visagens para acadelar os homens, embromar almas.  Nessa viagem, o ervateiro flutuava além dos banhados, como um boitatá disperso nos charcos, explodindo na ventania das savanas.

Foi num torpor lívido pela cachaça que Ramílio Flora mergulhou no brasido e foi preciso que o dia clareasse para que seus rebentos e a parceira Ciroba vissem seu corpo retorcido nas cinzas ainda fumegantes, prontas para incendiar o vale flutuante e expulsar os últimos colonos e caboclos que ainda insistissem em lavrar a terra esquálida.

Ramílio Flora virou fogo-fátuo e é por isso que ninguém se atreve a vaguear à noite pelas invernadas. Entre os ervais, voando rente às copas das araucárias, o boitatá sempre está à procura de novas carnes pra alimentar seu fogo esvoaçante e mal-assombrado, capaz de espantar até os sujeitos mais guascas.Fonte:Revista Globo Rural – Foto: Editora Globo/ Globo Rural

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