SC Rural ajudou a reverter o êxodo no campo

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Entrevista do secretário Executivo Estadual do Programa SC Rural, Julio Cezar Bodanese, ao portal da Associação de Diários do Interior de Santa Catarina.

No dia 9 de agosto, o governador Raimundo Colombo foi recebido, na sede do Banco Mundial (BIRD), em Washington (EUA), pelo diretor-geral e financeiro da instituição, Joaquim Levy. Foi apresentar os resultados do Programa Santa Catarina Rural (SC Rural) a fim de renovar o financiamento para uma nova etapa do programa.

Ficou surpreso com o nível de conhecimento que os técnicos do banco apresentaram sobre o programa, considerado o mais importante para o meio rural catarinense e que obteve nota máxima em praticamente todas as metas, desde seu início, em 2011.

Na semana passada (23), Colombo pediu apoio ao presidente Michel Temer e ao ministro da Fazenda, Henrique Meirelles, para que a negociação com o BIRD seja aprovada pelo Tesouro Nacional.

Para saber mais sobre o SC Rural e as expectativas para a próxima etapa, a Coluna Pelo Estado fez uma entrevista exclusiva com o secretário Executivo Estadual do programa, Julio Cezar Bodanese. Aqui ele fala da importância da iniciativa e, em consequência, de sua continuidade. Relata, os principais resultados, a experiência com jovens empreendedores rurais e o reflexo do trabalho que vem sendo feito na contenção do êxodo rural.

“Queremos que o SC Rural se consolide que ultrapasse governos, porque é uma forma inteligente de olhar o ambiente rural. Até o final de setembro, uma nova missão deve ir ao Banco Mundial, para apresentar mais dados e avançar na negociação” disse.

[PeloEstado] – Qual a importância do SC Rural?

Julio Cezar Bodanese – A grande importância do programa, e que está sendo caso de estudo por outros países, é o fato de ser uma experiência multissetorial voltada para a área rural. Seguramente é a única do país e uma das poucas do mundo que consegue realizar ações conjuntas. É uma política pública, uma forma de governança do ambiente rural. Com isso quero dizer que não é só a agricultura que está no contexto do programa, mas questões como recursos hídricos, turismo rural, infraestrutura e outras vertentes, o que leva à participação de diferentes órgãos – secretarias estaduais de Agricultura, de Turismo, de Infraestrutura e de Desenvolvimento Sustentável, a Epagri (Empresa de Pesquisa Agropecu- ária e Extensão Rural), a Cidasc (Companhia Integrada de Desenvolvimento Agrícola), a Fatma (Fundação do Meio Ambiente) e Polícia Militar Ambiental.

[PE] – Não é difícil trabalhar com tantos atores?

Bodanese – É possível fazer isso em Santa Catarina porque todos os secretários e presidentes de empresas se doaram a um programa de governo, uma política pública sem a criação de ilhas. O serviço público brasileiro é muito cheio de ilhas que não interagem. É preciso mudar isso. O futuro do país é a interação. Pensando em termos territoriais, o que não é urbano é rural. Com base nessa constatação, 98% do território de Santa Catarina é rural, uma área imensa que abriga somente 8% da nossa população e que ainda assim responde por 35% do nosso PIB (Produto Interno Bruto). Na hora em que começamos a interagir e trazer as ações focadas entre todos os atores que do ambiente rural, é possível otimizar recursos, otimizar mão de obra e alcançar resultados melhores para o campo. Já atingimos mais de 50 mil famílias rurais com melhorias de sistemas e mais de 10,8 mil famílias tiveram apoio financeiro.

[PE] – De onde vêm os recursos?

Bodanese – O SC Rural foi implantada em 2011, com apoio de financiamento do Banco Mundial (Banco Internacional para Reconstrução e Desenvolvimento – BIRD). O programa teve previsão de um gasto total de US$ 189 milhões, sendo US$ 90 milhões do BIRD e US$ 99 milhões de contrapartida do governo catarinense, para o período de 2011 a junho de 2017. O impacto econô- mico da ação do Estado paga o financiamento.

[PE] – Sem esses recursos, o programa está suspenso?

Bodanese – Não. O governo do Estado mantém essa política pública com recursos próprios, até porque já constava da programação financeira do Executivo desde o início do ano. E no próximo or- çamento isso deverá ser mantido. Existe a possibilidade de um novo financiamento do BIRD já estar em vigência no ano que vem. Serão mais US$ 180 milhões, dos quais US$ 126 milhões do banco e US$ 54 milhões do Estado.

[PE] – É um dinheiro caro, em se tratando de financiamento internacional?

Bodanese – A taxa de juros deles é ínfima. Pagamos somente a Libor (taxa de referência diária, calculada com base nas taxas de juros oferecidas para grandes empréstimos internacionais), com 10 anos de carência e 35 anos de prazo para pagamento. É um dinheiro de fomento. Para o novo financiamento que estamos buscando, mais uma vez propusemos a aplicação da Libor para cálculo de juros. Isso é menos de 1% ao ano! O prazo de carência será o mesmo, 10 anos, mas o de pagamento cai para 15 anos. Vale destacar que no primeiro financiamento a composição entre BIRD e governo estadual foi praticamente de 50% por 50%. No que está sendo negociado, a composição passa para 70% de recursos do banco e 30% do Estado.

[PE] - A Epagri lançou, recentemente, o Balanço Social de 2016, com resultados muito positivos. O mesmo vale para o SC Rural?

Bodanese – Sem dúvida. Temos hoje o reconhecimento internacional da efetividade do programa. Nós mesmos, no início do SC Rural, tínhamos muitas dificuldades para assimilar tantos novos conceitos, a interdisciplinaridade, a forma de agir. Hoje o nosso balanço é dos mais positivos. O programa é classificado pelo BIRD como “altamente satisfatório”, com pontuação máxima em praticamente todas as metas avaliadas.

[PE] - Qual a abordagem do programa até aqui?

Bodanese – Trabalhamos especificamente em empreendedorismo e negócios, para levar aumento de renda ao campo. Acreditamos que a permanência das famílias no meio rural passa, obrigatoriamente, pelo aumento da renda e pelo conforto social. A internet é um item importante pelo qual vamos trabalhar mais fortemente. O jovem rural tem que ter acesso às redes sociais, ao ensino à distância, ou seja, as mesmas condições de um jovem urbano para se relacionar com o mundo. E precisa ter expectativa de renda, de crescimento econômico, que justifique continuar morando e trabalhando no campo. Eles são capacitados como empreendedores, trabalham nas propriedades de suas famílias e implantam ali os projetos que desenvolveram no programa. É uma mudança de paradigma que tem efeitos já muito claros. Estamos assistindo a um processo muito raro de volta para o campo de jovens empreendedores que participaram dos cursos oferecidos no contexto do SC Rural. É uma reversão do êxodo rural com o qual nos assustamos nas últimas décadas.

[PE] – Tão pouco tempo de programa e já é possível afirmar isso?

Bodanese – Sim. Temos algumas pesquisas feitas pelo Instituto CEPA (Centro de Socieconomia e Planejamento Agrícola, da Epagri) que mostram que a renda dos agricultores com projetos apoiados pelo SC Rural aumentou 118% nos últimos anos. Aqueles que não participaram do programa só tiveram acréscimo de 50%. Ou seja, quase 70% de diferença! Esse dado é muito importante, uma vez que o aumento de renda tem reflexos na qualidade de vida e na condição social do agricultor.

[PE] – Quais as metas para a próxima fase do SC Rural?

Bodanese – Vamos manter o foco na geração de renda, na inclusão e nos projetos especiais de desenvolvimento, mas vamos trabalhar muito fortemente com a inovação e a tecnologia no campo. Pretendemos chegar a 70 municípios com área rural coberta pela internet. Já temos um projeto piloto com 11 municípios, o que exigiu a instalação de 54 torres para telefonia e internet com qualidade. Um diferencial da nova etapa do SC Rural será a atenção especial às famílias rurais que ficaram para trás, a pobreza rural. Um levantamento da Secretaria de Estado de Assistência Social mostra que há cerca de 100 mil pessoas beirando a pobreza extrema em nosso meio rural. Também temos como salvaguardas sociais trabalhar com indígenas e quilombolas.

[PE] - Como são definidos os participantes?

Bodanese – Nós sempre apoiamos grupos de pelo menos dez produtores, organizados formal ou informalmente. E que sejam pronafianos, ou seja, que têm a DAP (Declaração de Aptidão ao Pronaf – Programa Nacional de Fortalecimento da Agricultura Familiar). Portanto, o SC Rural é dirigido especificamente para esse segmento rural. Os produtores organizados em grupos têm a visão de que o associativismo vai dar mais resiliência frente ao mercado, mais competitividade e renda. Acreditamos que o pequeno, sozinho, é muito frágil. Mas se ele trabalha em grupos, é fortalecido. No caso dos jovens, damos apoio específico para um projeto de vida, orientado pelos extensionistas da Epagri. Os jovens testam seus projetos na propriedade dos pais, sob supervisão e com apoio financeiro. No período do SC Rural, já temos mais de 1.800 jovens capacitados e apoiados com fundos não reembolsáveis. Esse processo trouxe frutos magníficos, lindas histórias de jovens que criaram seus próprios negócios. Não são raros os casos em que, hoje, não é o jovem que trabalha com a família, mas a família que trabalha com ele. De uma ou outra forma, todo o universo da agricultura familiar foi beneficiado com o SC Rural, porque nós fortalecemos as instituições que trabalham no campo. Certificação de orgânicos, classificação vegetal, extensão rural, tudo foi aprimorado, com capacitação, qualificação e infraestrutura.

 

Mais informações:

Secretaria Executiva Estadual do SC Rural – (48) 3664 4307
Endereço eletrônico: imprensa@scrural.sc.gov.br

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